Friday, September 01, 2006

NOTAS SOBRE A CIDADE DE DEUS DE SANTO AGOSTINHO

Notas sobre a Cidade de Deus de Aurelius Augustinius (ano 426 dC)

"Dois amores construíram duas cidades: o amor próprio que conduz ao desprezo por Deus, fez a cidade terrena; o amor de Deus , que vai até ao desprezo por nós próprios, eigiu a cidade celeste.
De ti disseram coisas gloriosas, ó Cidade de Deus."


"Roma não é eterna, porque apenas Deus é eterno."


Resumo biográfico
Aurelius Augustinus, depois canonizado pela Igraja Católica romana como Santo Agostinho, nasceu na Namíbia, no norte da África, então sob domínio de Roma. Filho de Estudou em Cartago e seguiu a doutrina dos maniqueístas. Tardiamente converte-se ao cristianismo, 32 anos. Influenciado pela pregação de Ambrósio de Milão. Também se debita à aparição de um anjo no jardim de sua casa que lhe deixou uma mensagem com as palavras do Senhor “ ano diz que Tona-se professor de retórica em Milão. Depois de batizado na fé cristã retorna ao norte da África e estabelece em Tagaste uma ordem monástica. Ordenado sacerdote em Hipona no ano 391 tornar-se-ia famoso como pregador. Centenas de sermões agostianianos são preservados. Combateu as chamadas heresias, especialmente o maniqueísmo do qual fora seguidor. Defendeu a utilização da força pela Igreja contra os donatistas a fim de compelir os filhos perdidos a retornar do caminho da perdição, já que esses filhos perdidos conduzem outros à própria destruição - A Correção dos Donatistas. Nomado bispo de Hipona, permanece nessa condição. Consta ter ajudado os hiponenses sitiados pelos vândalos. É reconhecido como o Doutor da Igreja, com obra vasta e diversificada, obra que inclui comentários às sagradas escrituras, tratados teológicos, sermões e a autobiografia: Doutrina Cristã, 397-426, Confissões, 397-398, A Cidade de Deus, de 413 a 426, Da Trindade, 400-416, Enquirídio,Retratações, De Magistro. Aurelius Augustinius faleceu em 28 de agosto de 430, aos 75 anos, pouco antes da cidade ser incendiado pelos vândalos.
A cidade de Deus
Contexto histórico e relevância da obra
A obra Cidade de Deus foi iniciada em 413 e concluída em 427, compõe-se de vinte e dois livros. O objetivo imediato de Ausgustinius foi contestar a reação da população pagã do império romano que se aproveitava das invasões bárbaras para atacar o cristianismo. O culto cristão era o oficial de Roma de acordo com o Édito do Imperador Teodósio, em 391. A invasão e o saque de Roma promovido pelos visigodos chefiados por Alarico, havido como líder de bárbaros, em 410, traz à tona as contradições e disputas religiosas entre pagãos e cristãos do império romano. Os pagãos atribuíram ao Deus cristão toda responsabilidade da invasão, da não proteção de Roma. Segundo eles, as divindades verdadeiras davam como resposta pelo abandono de seus cultos esse castigo impiedoso, marcado pela mortes, destruição e saque. Nesse sentido, eles duvidavam dos poderes do Deus cristão, incapaz de impedir aquela catástrofe, de impedir a invasão bárbara. O intento de Agostinho escrever a Cidade de Deus foi justamente contestar esse estado de ânimo, refutar a agitação pagã, porém, sua obra ultrapassou esse objetivo imediato. De fato, a concepção agostiniana, que reúne elementos da filosofia grega – especialmente do platonismo – com os dogmas cristãos tornar-se-ia a explicação de mundo hegemônica dessa Idade Média iniciada após a derrocada do Império romano.
Uma perspectiva teológica e dualista da história

Santo Agostinho desenvolve uma filosofia da história fundada nos dogmas do cristianismo e parâmetros dualistas de dicotomias clássicas: celestial e terreno, sacro e profano, eterno e mortal, alma e corpo, o ser e o não ser, o inteligível e o sensível, o bem e mal.
Nessa perspectiva de dualidades, Santo Agostinho identifica duas cidades. De um lado, a cidade eterna, a verdadeira cidade, do bem, do espírito, a Cidade de Deus. De outro lado, a cidade terrena, passageira, corrompida, material, pecaminosa, do mal, Cidade dos Homens. A cidade eterna simboliza-se no Cristo martirizado na cruz, na verdade revelada a qual o cristão deve buscar a salvação através da fé em Deus e morar eternamente ao lado do Senhor.
Para o bispo de Hispona a cidade terrestre é corrompida posto que sujeita às ações e ambições de homens marcados pelo pecado original. O pecado de Adão e Eva, do primeiro homem e da primeira mulher se disseminou para todas as criaturas humanas. Assim, aqueles que persistem viver em pecado, que sucumbem à luxúria, à devassidão, à corrupção do corpo e da alma, constroem a Cidade dos Homens, são os seus moradores, esses estão condenados e serão castigados por terem cultivado os campos da perdição. Diferente destino daqueles que percorreram os caminhos da bem-aventurança; estes serão os salvos e alcançarão a Graça Eterna. São eles os bem-aventurados e eleitos que edificam a Cidade de Deus. Cabe aos homens a escolha entre o efêmero e o eterno, a salvação ou a condenação, conforme siga, ou não, fielmente, as verdades reveladas, os dogmas da religião cristã.
Deve-se notar, todavia, que segundo Santo Agostinho, apesar das duas cidades serem opostas, não pertencem a tempos diferentes, portanto guardam certa contemporaneidade. A Cidade de Deus, a construção perfeita é eterna, mas, também é inexaurível; perfeição contínua e incessante. Pois justamente com este edifício perfeito e contínuo o Santo cria uma filosofia e explica a história humana. Para ele todos os acontecimentos, todos os fatos da história carregam a marca da Providência. Clara visão teológica da história que submete as ações humanas aos desígnios de um Deus supremo e eterno. Santo Agostinho recorre às fontes bíblicas a fim de legitimar o seu corte bifurcado da história entre salvos e condenados, o bem e mal. Menciona as passagens do fraticida Caim, da catástrofe diluviana, do jugo escravista dos judeus no Egito, episódios que expressam maldades humanas, vilezas, sofrimento, fraqueza espiritual, ganância, com plano terreno, logo, ditos episódios estão no âmbito da Cidade dos Homens. Porém, atitudes justas, salvadoras, piedosas, generosas, marcadas pela fé, se incorporam aos sítios da Cidade de Deus. A cidadania celestial é concedida a Abel, o irmão assassinado; ao sobrevivente diluviano Noé da Arca, ao patriarca do povo judeu Abraão e a Moisés. Agostinho ressalta a missão divina de Nosso Jesus Cristo, o filho amado e sacrificado em nome do Pai Eterno. Amém. É bem conhecida a frase de Santo alusiva aos dois amores que originam as duas cidades díspares, a celestial e a terrena. Uma síntese fabulosa da ética cristã como fundamento para uma filosofia da história. Agostinho recorre aos preceitos da fé para explicar a sociedade dos homens e também para idealizar um mundo dos justos e salvos da cidade de Deus. Trata, portanto de questões mais gerais e universais do que as questões imediatas de contestação de pagãos nos tormentosos tempos da derrocada do império romano.
Agostinho elabora uma visão da história buscando elementos lógicos e racionais na filosofia grega para reafirmar os princípios e dogmas da religião católica. Sua análise histórica ilustra-se e funda-se em passagens da Bíblia. Se a Babilônia simboliza um antro de cativos e perdidos, a Jerusalém sagrada representa a terra da liberdade e da felicidade. Nas cidades antípodas se expressam as duas formas distintas de existência, geradas pelos “dois amores”. Criadores diferentes geram criaturas diferentes, Deus e os homens são diferentes, logo, geram frutos diferentes, produtos de amores também diferentes. Deus gera a Cidade de Deus para abrigar em seus domínios os bem-aventurados da sociedade humana, os eleitos.
Usa estratagema digno dos mais acurados sofistas na questão política que envolve o poder temporal e o poder espiritual. A obra Cidade de Deus é vista como tratado de teologia, de moral, mas não como tratado de política. Agostinho trata da questão política sem dizer de forma explícita que se trata de uma questão política central. Mas nesse ponto o bispo de Hispona, leitor dos gregos Platão e Aristóteles, não primou pela originalidade. Observa que a paz desejada se alcança através da concórdia entre mandantes e mandados. Aquele que ordena e o que recebe a ordem devem se amar mutuamente e ter por fim a paz. É na paz e na ordem que os homens encontram disposição para a felicidade e para a justiça. A paz é uma virtude suprema que só um amor verdadeiro pode realizar. Mas Agostinho não segue a idéia de eterno retorno dos gregos, firma-se no dogma cristão da encarnação de Cristo, fato singular e insusceptível de recorrência. Os homens devem agir como bem-aventurados no presente a fim de alcançar a graça futura que é eterna. Agostinho não separa no tempo nem subordina uma cidade da outra, elas são concomitantes, elas se comunicam, porém não se confundem. A cidade terrestre – sob o mando dos homens – possui autonomia em relação à cidade de Deus. Os fatos e acontecimentos que são positivos, louváveis, na cidade dos homens transmudam-se para o reino celestial. Por outro lado, as catástrofes, fome, guerras, enfim, o que é prejudicial e negativo permanece, exclusivamente, no âmbito da competência administrativa da cidade dos homens, esses seres finitos e imperfeitos. A mão de Deus se estende pelo mundo a fim de salvar aqueles que se humanizam na fé, na justiça, no amor, na paz, por toda parte onde a Cidade de Deus se edifica, “ De ti disseram coisas gloriosas, ó Cidade de Deus”.
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Referências:

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